SEMPRE UM POUCO MAIS

 

 

Tenho fome do silêncio das madrugadas,

 

da paz que a plenitude dos meus sonhos traz,

 

de poder caminhar pelas ruas, dobrar esquinas,

 

explorar praças, jardins, recantos,

 

de poder pisar nas areias de certa praia

 

que existe perto daqueles rochedos

 

lá pras bandas do meu desassossego.

 

 

Tenho fome de poder alquimizar minhas lembranças,

 

da solidão que sempre senti em minhas andanças,

 

da inquietude de ser tão incompleto

 

a ponto de preferir caminhar pela imensidão

 

a me afogar em lugares povoados de ilusão

 

e de poder alquimizar minhas verdades

 

até transformá-las em compreensão.

 

 

Tenho fome da ternura dos teus olhos,

 

da textura de tua pele branca,

 

das tuas marcas, sardas, caminhos, atalhos,

 

recantos umedecidos pelo orvalho:

 

saliva, suor, peçonha, espasmos...

 

Tenho fome do teu corpo inteiro,

 

só lamento não poder te devorar.

 

 

Tenho fome de poder macerar significados,

 

de perceber que a passarada em festa

 

não quebra a harmonia silenciosa dos meus dias,

 

de saber que águas que inundam meus passos

 

fazem parte das escolhas que eu faço:

 

água de chuva, água de rio,

 

água dos olhos, do seu corpo, água do mar.

 

 

Tenho fome de dar vida às coisas,

 

de poder conversar com as pedras,

 

de saber delas seus segredos, suas aflições,

 

de poder perceber o cochicho das folhas

 

que falam de uma sabedoria perdida:

 

linguagem dos anjos que me fazem

 

querer viver sempre um pouco mais.

 

 

 

 

 

POEMA DILACERADO

 

 

Por saberes, sagradas essências,

 

sacramentos, segredos, sementes...

 

Sangue, suor e saliva,

 

saboreados assim indecentes.

 

As lágrimas que eu trago comigo,

 

são salgadas, veneno latente.

 

Silenciosa e insidiosa serpente

 

que na tocaia sibila contente.

 

Um bardo a buscar um consolo

 

num poema feroz e indecente,

 

cantou cantigas de um tolo,

 

afogou-se em tonéis de aguardente.

 

Um palhaço lamenta e chora

 

a desdita de um ser tão descrente.

 

A poesia que eu trago comigo

 

já não jorra da mesma nascente.

 

Profanei os meus templos faz tempo,

 

naufraguei bem próximo ao cais,

 

soçobraram os meus sentimentos,

 

só restaram alguns poucos ais.

 

Saberes, segredos, sementes,

 

sangue, suor e aguardente,

 

gotejando do canto dos lábios.

 

Letras frias demais!

 

A poesia que restou sem abrigo,

 

versos tortos, paridos gemidos,

 

só destoam e ainda que doam,

 

não conseguem trazer-me a paz.

 

 

 

 

 

A ALMA QUE EU TENHO

 

 

A alma que eu tenho inquieta,

 

se apressa a percorrer caminhos

 

e por onde ela passa repleta

 

colhe sementes, carinhos,

 

guarda cheiros latentes

 

que só ela é capaz de sentir.

 

A alma que eu tenho,

 

traz em seu rosto um sorriso,

 

meio assim sem juízo,

 

que desfaz em seu corpo as marcas

 

deixadas por conta de espinhos,

 

colhidos na pressa confessa

 

e na ânsia de se viver.

 

A alma que eu tenho

 

costuma tecer melodias,

 

retratos de uma agonia

 

que só quem ouve e consente

 

consegue se aperceber.

 

A alma que eu tenho

 

desfaz-se em versos, poemas,

 

é brisa que bate serena,

 

que atiça e acaricia o seu corpo

 

e o faz com destreza e gosto,

 

coisa difícil de se esquecer.

 

A alma que eu tenho

 

é prisioneira e ao mesmo tempo liberta,

 

que acabam sempre em retorno,

 

pois só em você encontro o meu porto,

 

abrigo tão quente e tranqüilo,

 

 

 

 

 

VERSOS MALVADOS

 

 

Malvado é um pistom em surdina,

 

num pranto dilacerado,

 

madrugada chuvosa de inverno,

 

num quarto de hotel junto ao cais.

 

Louis Armstrong que o diga!

 

Malvada é a flauta inquieta,

 

nostalgia que brota sem pressa,

 

manhãs nubladas de julho,

 

e a vida sufocada num embrulho,

 

difícil de desmanchar.

 

Malvados são os acordes insanos, profanos,

 

de uma guitarra cigana, sem planos,

 

estradas, jornadas incertas,

 

caminhos que teimosamente eu tento,

 

lugar algum pra chegar.

 

Malvado é o espinho da rosa que espeta,

 

que sangra as mãos de quem colhe,

 

manchadas as teclas do piano,

 

sinfonia ardida de enganos,

 

e que ainda assim, eu teimo em escutar.

 

Malvado é o entardecer numa cidade deserta,

 

e um vento frio que invade,

 

varrendo ruas, esquinas,

 

e um cisco no olho disfarça

 

a lágrima que teima em chorar.

 

Malvado é o apito de um trem,

 

que diz até logo e um abraço.

 

Quem foi, partiu pra bem longe,

 

prometeu que voltava um dia,

 

não sei por onde andará.

 

Malvado é o poema que eu choro,

 

que diz da solidão que eu temo,

 

em matizes sombrios que eu sonho,

 

Michel Legrand ao piano,

 

tem coisas que apesar dos muitos anos,

 

eu não consigo esquecer.

 

 

 

 

 

TARDES

 

 

Tardes fartas,

 

plenas de ventos.

 

Aqui fora e lá dentro,

 

águas revoltas,

 

inquietude tão solta...

 

Parece coisa à toa,

 

mas o pensamento voa

 

e não consegue mais pousar.

 

Tardes de outono,

 

tão plenas de incertezas,

 

de maré vazante na orla,

 

de rochas expostas, nuas,

 

coisa ardida, asperezas,

 

de saudade doida que aperta

 

e não adianta reclamar.

 

Tardes que eu tenho,

 

tão plenas de sombras...

 

Ao me olhar assim de soslaio

 

noite encontrou um atalho

 

e nasceu lá dentro de mim.

 

Tardes....

 

Que pena!

 

É tarde...

 

Não dá mais pra voltar.

 

 

 

 

 

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Publicado em  19/06/2011