O LOUCO

 

Gibran Khalil Gibran

 

Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:

 

Um dia, muito tempo

antes de muitos deuses terem nascido,

despertei de um sono profundo

e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas

– as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas –

e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando:

“Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”

 

Homens e mulheres riram de mim

e alguns correram para casa, com medo de mim.

 

E quando cheguei à praça do mercado,

um garoto trepado no telhado de uma casa gritou:

“É um louco!”

Olhei para cima, para vê-lo.

O sol beijou pela primeira vez minha face nua.

 

Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua,

e minha alma inflamou-se de amor pelo sol,

e não desejei mais minhas máscaras.

E, como num transe, gritei:

“Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”

 

Assim me tornei louco.

 

E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura:

a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido,

pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.
 
 
 
 
 
 
 
                   
 
 
 

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Publicado em 03/04/2010